{"id":18719,"date":"2025-07-31T20:40:35","date_gmt":"2025-07-31T20:40:35","guid":{"rendered":"https:\/\/valdambrini.com.br\/?p=18719"},"modified":"2025-07-31T21:01:25","modified_gmt":"2025-07-31T21:01:25","slug":"bets-casos-de-funcionarios-viciados-em-apostas-comecam-a-chegar-na-justica-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/valdambrini.com.br\/en\/bets-casos-de-funcionarios-viciados-em-apostas-comecam-a-chegar-na-justica-do-trabalho\/","title":{"rendered":"Bets: casos de funcion\u00e1rios viciados em apostas come\u00e7am a chegar na Justi\u00e7a do Trabalho"},"content":{"rendered":"<p>No interior do Rio Grande do Sul, ao longo de cinco dias, uma assistente de vendas do Magazine Luiza se aproveitou do acesso \u00e0 tesouraria e ao fundo de troco da loja e que trabalhava e surrupiou R$ 53.618 da empresa. Confrontada com o fato de que as imagens das c\u00e2meras de seguran\u00e7a registraram o furto, a funcion\u00e1ria admitiu o il\u00edcito \u2013 e revelou o motivo: viciada em bets, ela se apropriou do dinheiro da loja que a empregava para poder jogar mais. Ela contou que, conforme perdia os valores, se desesperou e passou a fazer retiradas maiores com o objetivo de conseguir devolver o dinheiro \u00e0 loja, mas as perdas s\u00f3 aumentaram. Duas semanas depois, com o fim de uma auditoria sobre o caso, ela acabou demitida por justa causa. O caso agora tramita na Justi\u00e7a do Trabalho, j\u00e1 que a ex-funcion\u00e1ria tenta derrubar a justa causa sob o fundamento de que a empresa a teria perdoado de forma t\u00e1cita porque a demiss\u00e3o s\u00f3 veio duas semanas depois da confiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo envolvendo o Magazine Luiza n\u00e3o \u00e9 \u00fanico. Caracterizada pelo desejo incontrol\u00e1vel de continuar jogando, a ludopatia \u00e9 considerada como uma doen\u00e7a pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) e no Brasil \u00e9 identificada pela CID 10-Z72.6 (mania de jogos e apostas) e pela CID 10-F63.0 (jogo patol\u00f3gico). E os reflexos dessa doen\u00e7a e da populariza\u00e7\u00e3o das bets j\u00e1 come\u00e7aram a ser sentidos no mercado de trabalho e tamb\u00e9m no Judici\u00e1rio especializado.<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem do JOTA identificou 8 decis\u00f5es tomadas em 2025 sobre o tema nos Tribunais Regionais do Trabalho da 2a Regi\u00e3o (TRT2, em S\u00e3o Paulo), da 4a Regi\u00e3o (TRT4, no Rio Grande do Sul), da 15a Regi\u00e3o (TRT15, no interior de S\u00e3o Paulo) e da 17a Regi\u00e3o (TRT17, no Esp\u00edrito Santo). Dos oito casos levantados, sete tratavam de demiss\u00e3o por justa causa; no restante, o trabalhador requeria indeniza\u00e7\u00e3o por considerar a dispensa contra ele discriminat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos sete casos sobre justa causa, em cinco a decis\u00e3o da empresa de punir o empregado com a demiss\u00e3o mais grave foi mantida pelos magistrados. No escopo da Consolida\u00e7\u00e3o das Leis Trabalhistas (CLT), a demiss\u00e3o por justa causa \u00e9 considerada como a penalidade m\u00e1xima aplic\u00e1vel no \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, inclusive pela pr\u00e1tica constante de jogos de azar, como delimita a al\u00ednea &#8216;l&#8217; do art. 482 da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista. A dispensa implica na rescis\u00e3o imediata do contrato de trabalho por parte do empregador, sem o pagamento de algumas verbas rescis\u00f3rias, como aviso pr\u00e9vio e multa de 40% do FGTS, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos outros dois processos, houve revers\u00e3o da penalidade. Em um deles, inclusive, foi determinada a reintegra\u00e7\u00e3o do funcion\u00e1rio ludopata. J\u00e1 o trabalhador que buscava a indeniza\u00e7\u00e3o por dispensa discriminat\u00f3ria n\u00e3o foi bem-sucedido.<\/p>\n\n\n\n<p>O maior tribunal trabalhista do pa\u00eds, o TRT2, concentra metade dos casos sobre bets at\u00e9 o momento. Foram 4 decis\u00f5es sobre o tema, sendo que em uma delas a dispensa foi revertida. No processo de n\u00famero 1001466-38.2024.5.02.0471, por exemplo, uma supervisora de um escrit\u00f3rio que faz cobran\u00e7as de d\u00edvidas buscava reverter a demiss\u00e3o por justa causa por ter induzido operadores a fazer jogos de apostas online, com promessa de retorno acima das m\u00e9dias de mercado. Ela tamb\u00e9m autorizou o uso de celulares \u2013 para fazer as apostas \u2013 durante a jornada de trabalho, o que, conforme as normas da empresa, era proibido.<\/p>\n\n\n\n<p>Por unanimidade, a 12a Turma do TRT2 manteve a dispensa por justa causa em decis\u00e3o de 12 de maio. A relatora do ac\u00f3rd\u00e3o, desembargadora Tania Bizarro Quirino de Morais, destacou que a jurisprud\u00eancia trabalhista entende que a pr\u00e1tica contumaz de atividades alheias \u00e0 fun\u00e7\u00e3o laboral durante o expediente pode configurar des\u00eddia e mau procedimento, o que legitima a aplica\u00e7\u00e3o da justa causa. Para ela, o ato praticado pela supervisora inviabilizou a continuidade do contrato, pois &#8220;destru\u00edda a confian\u00e7a que deve existir entre as partes&#8221;. Segundo Morais, uma vez destru\u00edda a confian\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 o que se falar em desproporcionalidade da puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso de furto no Magazine Luiza por v\u00edcio em bets<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 26 de junho, o juiz Celso Fernando Karsburg, da 1a Vara do Trabalho de Santa Cruz do Sul (RS), reconheceu como v\u00e1lida a dispensa por justa causa da assistente de vendas do Magazine Luiza e julgou procedente o pedido de reconven\u00e7\u00e3o da empresa para que a mulher pague R$ 53.618 por danos materiais.<\/p>\n\n\n\n<p>O magistrado ponderou que o fato de a mulher ter se apropriado de mais de R$ 53 mil do caixa da empresa \u00e9 grave o suficiente para justificar o &#8220;rompimento imediato do pacto laborativo porquanto causou a quebra da confian\u00e7a necess\u00e1ria para a sua continuidade&#8221;, de forma que n\u00e3o havia d\u00favidas acerca da tipicidade e da gravidade do ato praticado pela mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 alega\u00e7\u00e3o de falta de imediatidade da demiss\u00e3o por justa causa, o juiz considerou plaus\u00edvel a justificativa de que a decis\u00e3o de dispensar a funcion\u00e1ria s\u00f3 foi tomada depois do fim da auditoria, mesmo que antes ela j\u00e1 tivesse confessado o ato il\u00edcito.<\/p>\n\n\n\n<p>O juiz considerou que a assistente de vendas deixou claro que, conforme foi perdendo nas apostas os valores dos quais se apropriou, foi &#8220;se desesperando para conseguir devolver \u00e0 loja&#8221;, o que para ele n\u00e3o deixa d\u00favidas de que tinha plena consci\u00eancia da ilicitude dos seus atos. Al\u00e9m disso, em momento algum, a funcion\u00e1ria alegou que, na data em que se apropriou dos valores da empresa, estava mentalmente incapaz a ponto de n\u00e3o ter consci\u00eancia da ilicitude da sua conduta.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o juiz, \u00e9 incontroverso o dano material causado pelo dolo da funcion\u00e1ria, j\u00e1 que ficou comprovada a inten\u00e7\u00e3o dela de se apropriar de mais de R$ 53.618 da empresa.<\/p>\n\n\n\n<p>O juiz tamb\u00e9m considerou que n\u00e3o ficou suficientemente demonstrada pelos atestados m\u00e9dicos a condi\u00e7\u00e3o de ludopata, de forma que ela teria agido de maneira consciente. Por tudo isso, a mulher foi condenada a indenizar a ex-empregadora pelo preju\u00edzo causado.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurado pela reportagem do JOTA, o Magazine Luiza afirmou que n\u00e3o ir\u00e1 se manifestar sobre o caso. O processo tramita com o n\u00famero 0020040 34.2025.5.04.0731 no Tribunal Regional do Trabalho da 4a Regi\u00e3o (TRT4).<\/p>\n\n\n\n<p>Outras decis\u00f5es envolvendo bets na Justi\u00e7a Trabalhista<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro processo, um funcion\u00e1rio que, de acordo com uma testemunha, &#8220;estava sempre apostando, jogando roletinha, tigrinho, falava abertamente sobre apostas de futebol, tudo durante o expediente&#8221;, tamb\u00e9m buscava a revers\u00e3o da demiss\u00e3o por justa causa de uma empresa de contabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O empregador justificou a demiss\u00e3o pelas pr\u00e1ticas de jogos de azar no ambiente e hor\u00e1rio de trabalho e, tamb\u00e9m, devido aos atrasos reiterados. O funcion\u00e1rio somou 17 atrasos em um m\u00eas e recebeu algumas advert\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>O juiz Samuel Angelini Morgero, da 4a Vara do Trabalho de Santos, considerou em senten\u00e7a de 9 de junho que a penalidade foi corretamente aplicada, visto que, nos termos da CLT, constituem &#8220;justa causa para rescis\u00e3o do contrato de trabalho pelo<br>empregador o ato de improbidade, a des\u00eddia no desempenho das respectivas fun\u00e7\u00f5es e a pr\u00e1tica constante de jogos de azar&#8221;. (Processo no 1000227-46.2025.5.02.0444).<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro caso semelhante no TRT2, um homem buscava reverter a dispensa por justa causa, sob o argumento de que n\u00e3o foram apresentadas provas consistentes, como logs de acessos ou mesmo advert\u00eancias anteriores sobre a acusa\u00e7\u00e3o de ele fazer apostas durante o expediente. A empresa, que oferta o servi\u00e7o de diaristas, disse ter ouvido diversos colaboradores. Os depoimentos foram un\u00e2nimes sobre ele deixar de realizar o trabalho para jogar em sites ilegais de aposta no computador da empresa durante o expediente. (Processo no 1000868-67.2024.5.02.0606).<\/p>\n\n\n\n<p>A 2a Turma do TRT2 reconheceu por unanimidade, em decis\u00e3o de 23 de abril, a validade da dispensa por justa causa. Para P\u00e9rsio Lu\u00eds Teixeira de Carvalho, relator do recurso, h\u00e1 documenta\u00e7\u00e3o nos autos que comprova as diversas reclama\u00e7\u00f5es feitas contra o homem. &#8220;Frise-se que quando o empregado, durante sua jornada de trabalho, faz uso de jogos de azar, h\u00e1 motivo suficiente para a demiss\u00e3o por justa causa, nos moldes do artigo 482, &#8216;l&#8217;, da CLT. De se ressaltar, ali\u00e1s, que acessar sites que n\u00e3o tenham nada a ver com o conte\u00fado do trabalho tamb\u00e9m podem ser considerados motivos&#8221;, afirmou o desembargador.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Vara do Trabalho de Itapira, vinculada ao TRT15, uma das decis\u00f5es manteve a dispensa do funcion\u00e1rio sem o pagamento da multa de 40% e de outras verbas rescis\u00f3rias, mas condenou a empresa a indenizar o ex-empregado em R$ 2 mil. Como o motoboy contratado por uma farm\u00e1cia deixou diversas vezes de prestar contas de trocos, o magistrado considerou l\u00edcita a justa causa. Mas a empresa argumentava que ele se apropriava deste dinheiro para apostar e justificou a justa causa como um ato de improbidade, o que n\u00e3o ficou demonstrado, na vis\u00e3o do juiz. Diante da gravidade da acusa\u00e7\u00e3o, a empresa foi condenada a pagar uma indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 2 mil a ele. (Processo no 0011069-84.2024.5.15.0118)<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a 7a C\u00e2mara da 4a Turma do TRT15 negou o pedido de um trabalhador da ind\u00fastria Granol, focada no esmagamento de soja, para considerar a demiss\u00e3o dele discriminat\u00f3ria. O homem, que tem depress\u00e3o grave e fobia social, buscava reverter a demiss\u00e3o sob o argumento de que ele estava doente e por isso a dispensa teria sido discriminat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>No processo ele conta que tentou fazer investimentos e apostas online para n\u00e3o ter contato social com outras pessoas, mas acabou contraindo d\u00edvidas e teve de recorrer a empr\u00e9stimos de colegas de trabalho. O juiz considerou que a empresa n\u00e3o deveria indenizar o trabalhador, mesmo que o trabalho atuasse como concausa da depress\u00e3o, porque a companhia foi diligente ao proporcionar um ambiente de trabalho saud\u00e1vel e retirou fun\u00e7\u00f5es de atendimento a clientes do ex-empregado. (Processo no 0010430- 22.2024.5.15.0068)<\/p>\n\n\n\n<p>Revers\u00e3o da justa causa pela Justi\u00e7a do Trabalho<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas duas das decis\u00f5es mapeadas reverteram a aplica\u00e7\u00e3o da justa causa. Em uma delas, em tramita\u00e7\u00e3o no TRT2, uma funcion\u00e1ria que pediu demiss\u00e3o acabou, logo em seguida, sendo demitida por justa causa pela empresa sob a alega\u00e7\u00e3o de que ela havia praticado jogos de azar durante a jornada de trabalho. Com isso, a companhia n\u00e3o pagou algumas das verbas rescis\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>No processo, a empresa anexou advert\u00eancias pelo fato de a funcion\u00e1ria fazer apostas durante a jornada de trabalho e uma suspens\u00e3o aplicadas a ela, para justificar que n\u00e3o havia outra alternativa sen\u00e3o a aplica\u00e7\u00e3o da penalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeira inst\u00e2ncia, a 2a Vara do Trabalho de Barueri (SP) concordou com a decis\u00e3o da empresa e manteve a justa causa. Mas, ao julgar o recurso, a 2a Turma do TRT2, afastou, em decis\u00e3o de 2 de julho, a puni\u00e7\u00e3o, ao reconhecer que a rescis\u00e3o contratual ocorreu por iniciativa da mulher, ou seja, por pedido de demiss\u00e3o. Al\u00e9m disso, a magistrada destacou que n\u00e3o se verifica nos autos que tenha sido observada a grada\u00e7\u00e3o das penas para impor a justa causa \u00e0 funcion\u00e1ria. Com isso, a trabalhadora passou a ter direito tamb\u00e9m \u00e0s f\u00e9rias proporcionais e adicional de 1\/3, al\u00e9m do 13\u00b0 sal\u00e1rio proporcional, verbas que n\u00e3o receberia com a justa causa. (Processo no 1000272-34.2024.5.02.0202)<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o juiz Jedson Marcos dos Santos Miranda, da 2a Vara do Trabalho de Vit\u00f3ria (ES), foi o respons\u00e1vel por mandar reintegrar um funcion\u00e1rio de hotel demitido por justa causa sob alega\u00e7\u00e3o de estar viciado em bets e pedir empr\u00e9stimos a colegas. O trabalhador buscava uma indeniza\u00e7\u00e3o por danos morais por afirmar que a dispensa foi discriminat\u00f3ria, uma vez que ele se encontrava em tratamento psiqui\u00e1trico para depress\u00e3o, ansiedade generalizada e s\u00edndrome de p\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>O magistrado n\u00e3o considerou que houve discrimina\u00e7\u00e3o na dispensa, mas determinou que o trabalhador fosse reintegrado \u00e0 empresa porque ele foi demitido quando ainda estava inapto para trabalhar. Cerca de 20 dias antes da dispensa ele havia sido internado, de forma que n\u00e3o houve tempo suficiente para os medicamentos prescritos surtirem efeito terap\u00eautico pleno.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da condena\u00e7\u00e3o, o hotel acabou fechando um acordo para pagar R$ 40 mil a trabalhador. Em compensa\u00e7\u00e3o, o funcion\u00e1rio n\u00e3o foi reintegrado ao trabalho. Ambas as partes declararam no acordo que os valores pagos s\u00e3o uma forma de indeniza\u00e7\u00e3o dos meses de trabalho decorrentes da nulidade da dispensa reconhecida pelo magistrado. O acordo foi homologado em 16 de maio pela 2a Vara do Trabalho de Vit\u00f3ria (ES). (Processo no 0000029-11.2024.5.17.0002)<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a justa causa pode ser aplicada em casos envolvendo bets?<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriel Bazalia Sales, coordenador da \u00e1rea trabalhista do escrit\u00f3rio Rayes e Fagundes, explica que o empregado que \u00e9 dispensado por justa causa, desde que devidamente fundamentada nas hip\u00f3teses previstas da CLT, tem direito apenas \u00e0s<br>verbas rescis\u00f3rias m\u00ednimas, ou seja, o saldo de sal\u00e1rio dos dias trabalhados no m\u00eas da demiss\u00e3o, as f\u00e9rias vencidas e o adicional de 1\/3. Sendo assim, o empregado perde ent\u00e3o o direito ao recebimento do valor das f\u00e9rias proporcionais \u2013 e do adicional de 1\/3 delas \u2013, ao 13o sal\u00e1rio proporcional, ao saque do FGTS e multa de 40% sobre os dep\u00f3sitos fundi\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto do v\u00edcio em apostas, Elisa Afonso, especialista em Direito do Trabalho e s\u00f3cia do RCA Advogados, destaca que a justa causa se torna leg\u00edtima quando o comportamento do trabalhador compromete de forma concreta e direta a rela\u00e7\u00e3o de emprego. Como exemplo, menciona os casos em que h\u00e1 apropria\u00e7\u00e3o indevida de valores da empresa para realiza\u00e7\u00e3o de apostas, utiliza\u00e7\u00e3o reiterada de equipamentos da empregadora durante a jornada de trabalho para acessar plataformas de jogos online, viola\u00e7\u00e3o de sigilo profissional ao expor dados da organiza\u00e7\u00e3o, ou ainda quando a depend\u00eancia afeta a produtividade, o conv\u00edvio e a integridade do ambiente de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A jurisprud\u00eancia tem reconhecido a validade da justa causa em situa\u00e7\u00f5es bem documentadas e de efetiva gravidade, como nos casos em que h\u00e1 exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica da empresa de forma ofensiva, apropria\u00e7\u00e3o de valores para realiza\u00e7\u00e3o de apostas ou atos que violem o dever de boa-f\u00e9 e lealdade&#8221;, diz. Por outro lado, pontua que, quando a puni\u00e7\u00e3o se mostra desproporcional \u00e0 infra\u00e7\u00e3o ou quando n\u00e3o est\u00e3o presentes os requisitos legais, a dispensa por justa causa tende a ser desconstitu\u00edda judicialmente pelos magistrados trabalhistas \u2013 a exemplo dos casos mencionados acima.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Gabriella Valdambrini, advogada especialista em Direito Trabalhista Empresarial do Valdambrini Arruda de Andrade Advocacia, a maior dificuldade est\u00e1 centrada em definir quando o uso de aparelhos para jogos de azar durante o trabalho pode estar relacionada a uma doen\u00e7a psiqui\u00e1trica \u2013 como a ludopatia \u2013, ou quando o indiv\u00edduo simplesmente estava jogando no hor\u00e1rio de trabalho porque quis. Segundo ela, para uma justa causa ser bem aplicada, \u00e9 necess\u00e1rio que sejam observados alguns requisitos que est\u00e3o na lei, sendo o primeiro o da imediatidade. &#8220;Se constatado que o ato infracion\u00e1rio aconteceu, \u00e9 preciso ter celeridade entre essa confirma\u00e7\u00e3o e a aplica\u00e7\u00e3o da pena. Porque, ao contr\u00e1rio, ocorre o que chamamos de perd\u00e3o t\u00e1cito&#8221;, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o segundo requisito \u00e9 a proporcionalidade entre a atitude do empregado e a pena aplicada pela empresa. &#8220;Dentro do contrato de trabalho, h\u00e1 a advert\u00eancia verbal, a advert\u00eancia por escrito, a suspens\u00e3o e a justa causa. Ent\u00e3o, temos uma variedade de penalidades que podem ser aplicadas ao empregado e ela deve observar o qu\u00e3o grave foi o ato praticado por ele&#8221;, ilustrou a advogada. &#8220;Vamos imaginar o seguinte cen\u00e1rio: se um empregado simplesmente foi visto um dia jogando no celular durante o hor\u00e1rio de trabalho, isso \u00e9 um ato faltoso porque ele est\u00e1 perdendo o hor\u00e1rio de trabalho para jogar. Nesse caso, poder\u00e1 ser aplicada uma advert\u00eancia, por exemplo&#8221;, explicou Valdambrini.<\/p>\n\n\n\n<p>A conta tamb\u00e9m pode acabar sobrando para a empresa, caso fique comprovado que ela contribuiu, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o, para o desenvolvimento do v\u00edcio em jogos de apostas pelo empregado no ambiente de trabalho. Isso pode ocorrer, por exemplo, se houver toler\u00e2ncia ou incentivo, direto ou indireto, \u00e0 pr\u00e1tica do jogo, especialmente por parte de lideran\u00e7as que representam o empregador. &#8220;O dever legal da empresa \u00e9 garantir um ambiente de trabalho saud\u00e1vel, tanto f\u00edsica quanto psicologicamente. Caso descumpra esse dever, ela pode ser responsabilizada civilmente por danos causados ao empregado, e o descumprimento ou a omiss\u00e3o por parte dela pode inclusive ser usado como argumento em eventual a\u00e7\u00e3o indenizat\u00f3ria&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>O advogado tamb\u00e9m lembra que a preocupa\u00e7\u00e3o em tutelar a seguran\u00e7a do trabalhador \u2013 especialmente a psicol\u00f3gica \u2013 tem sido objeto de discuss\u00f5es recentes e crescentes, a exemplo da altera\u00e7\u00e3o ocorrida na Norma Regulamentadora 17 (NR-17), que passou a exigir que as empresas mapeiem e gerenciem riscos ocupacionais de natureza psicossocial. &#8220;O mais recomend\u00e1vel \u00e9 que o empregador tenha pol\u00edticas claras sobre o uso de dispositivos eletr\u00f4nicos, jogos online e condutas no ambiente de trabalho, para prevenir alega\u00e7\u00f5es de coniv\u00eancia com pr\u00e1ticas nocivas \u00e0 sa\u00fade dos empregados&#8221;, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p>Mirielle Carvalho <br>Rep\u00f3rter<br>Fonte: Jota Pr\u00f3<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No interior do Rio Grande do Sul, ao longo de cinco dias, uma assistente de vendas do Magazine Luiza se aproveitou do acesso \u00e0 tesouraria e ao fundo de troco da loja e que trabalhava e surrupiou R$ 53.618 da empresa. 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